Abrandar – a necessária urgência de engrenar um modo SLOW de ser/estar no mundo.

O mundo tem pressa. A mente pede calma na alma. Se não é possível viver sem pressa e sem dar calma à alma, ao menos um intervalo de tempos em tempos, precisam mente, corpo e alma. Um intervalo pra preencher de amor.

Perdeu-se a essência, abandonaram–se aptidões e habilidades, colocou-se de lado o verdadeiro dom/paixão. Conectou-se a tudo e todos e desconectou-se de si. Excesso, pressão e sobrecarga de informação, falta de tempo, exigências pessoais e sociais ditam as regras da rotina.

E o baile segue; insano, competitivo, acelerado. E os seres seguem o baile …às pressas, impacientes, morrendo de medo de perder alguma informação imprescindível, inundados de novas/mais opções/escolhas a cada minuto. O simples torna-se complexo; o habitual soa natural. E se instala aí a grande armadilha; acostuma-se e acomoda-se.

Mas o corpo tem limites e a vida é sábia. Ou abrandas/desacelera ou algo fá-lo-á parar de qualquer maneira – queira/possa ou não.

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Busca Vida (nome de uma praia na Bahia e de uma cachaça de mel e limão) – Em mim, o desejo de uma vida SLOW é antigo e só cresce. Em 2014 percorri a Itália de norte a sul em busca de personagens inspiradores, seres que vivem na rotina o que acreditam e amam na vida. E foi na Toscana que conheci uma pessoa incrível, que fez a escolha de sair da zona de conforto (trabalho bem remunerado na cidade grande) pra buscar mais VIDA. Descobrir de camadas supérfluas/excessos e preencher do que acrescenta. Passei um tempo lindo no mundo encantado da paulistana Jessica Hollaender que rendeu uma matéria aqui:

https://www.nowmaste.com.br/vida-simples-leve-e-colorida-gente-que-vive-o-que-ama-na-vida-por-fernanda-nicz/

Desde então, seguimos em contato e morro de vontade de visitá-la em breve. Hoje, já completamente inserida na vida Slow (foi há cinco anos que se mudou pra Toscana), Jessica sente o momento de transbordar tudo que assimilou, aprende e vive. É hora de ser “ponte”, como ela diz, entre dois mundos: aquele em que viveu e o que vive hoje.

Do passado, traz a formação em Psicologia, o MBA em Business e uma bonita carreira executiva de 15 anos na grande São Paulo. Da rotina atual; uma vida mais simples, mais conectada, mais inteira. Cuida do jardim e da horta, faz pães, geleias, doces, sabonetes, busca água direto da fonte, aprecia o silêncio e pode ouvir a natureza. Trabalha com Tours e Degustações de vinhos e queijos numa fazenda agrícola a sete minutos de casa. Qualidade de vida…trabalhar perto de casa!  A mudança a fez adequar/sintonizar ritmo interno a ritmo da natureza. Ganhou leveza e toda a VIDA que buscava.

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Sob o Sol da Toscana – Da vontade de apresentar seu mundo, nasceu, em parceria com o amigo Marcos Paim – que pensa parecido e fez escolhas de vida no mesmo caminho – o projeto Slow (your) Life in Tuscany que teve, em 2019, sua primeira edição.

Pensado a partir de grandes paixões presentes na vida da maioria dos italianos; arte, gastronomia e vinhos, o programa acontece durante cinco dias no interior da Toscana. A proposta é “desconectar pra reconectar”. Vivenciar, experimentar, refletir e, quem sabe, transformar. Ao lado de pessoas que cresceram e/ou escolheram esta parte do mundo pra viver, reaprender a estar presente no momento presente (um dos fundamentos do movimento SLOW). Um irresistível convite a provar um diferente estilo de vida e repensar prioridades.

 

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Slow Movement – O movimento que, felizmente, só cresce e ganha novas vertentes; slow food, slow city, slow mind, slow travel, teve início em Roma, no ano de 1986, quando um italiano, Carlo Petrini, realizou um protesto contra a inauguração de um restaurante McDonald’s na Piazza di Spagna.

O que se propõe é uma mudança cultural para desaceleração da vida cotidiana. No livro “Devagar”, o canadense Carl Honoré demonstrou como a filosofia Slow pode ser aplicada:

Não é fazer tudo a ritmo de caracol. Trata-se de tentar fazer tudo à velocidade certa. Saboreando horas e minutos em vez de apenas contá-los. Fazer tudo que for possível, em vez de ser o mais rápido possível. É sobre ter qualidade em detrimento da quantidade. Ser devagar significa controlar os ritmos da nossa vida. É você que decide em que velocidade deve andar em determinado contexto.

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Respeito aos ritmos naturais, bem-estar e realização do potencial do indivíduo, do território e da comunidade, valorização da simplicidade e uso responsável dos recursos materiais. Abrandar é virtude, mas, hoje, ainda tabu – confunde-se à preguiça e baixa produtividade. Mas o ser humano não é máquina e a ideia de que tudo tem de ser pra ontem é tóxica.

Slow (your) Life inTuscany – Tudo que sugere tempo e presença merece um olhar atento.  Assim, o programa, cuidadosamente pensado pela Jessica e pelo Marcos, tem como espaço principal uma casa histórica – entre vinhedos e oliveiras – do ano 1.200 que pertenceu à família de Maquiavel. Mas não só o espaço extravasa história e acrescenta. Fazem parte do time, profissionais apaixonados pelo que fazem; chefe de cozinha, enólogo, sommelier, mestre em história da arte, professora de yoga, entre outros seres especiais.

Marque na agenda o período de 21 a 26 de junho de 2020 para acordar com sessões de yoga e meditação sob o céu e a luz da Toscana e presentear mente, corpo e alma com o modo SLOW de viver. Uma celebração ao “dolce far niente” em todos os sentidos – detalhes aqui: www.slowlifein.com.

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Da maresia à necessária travessia; gente que vive o que ama na vida!

Quem vai, imagina que aonde vai é onde deveria estar.

Quem fica, acredita que onde está é como deve ser.

Entre ir e ficar; passa o tempo em meio a passatempos.

Para quem fica, normal, natural e saudável é a rotina. Raramente questiona o “andar da carruagem”, segue. A possibilidade de outra realidade é remota. Seu mundo (bom ou ruim) é uma bolha; sua dança é conforme a música (legal ou chata).

Para quem vai, a busca é por vida (boa ou ruim) além da bolha e dança além da música – de acordo com seu ritmo (feliz ou triste).

Escolhas; escola da vida. Nada fácil ficar, quiçá, IR –, afastar-se de conhecidas referencias de toda uma vida. Muitos seres, longe da rotina criada e até então, intensamente vivida, perdem a identidade. Criador e criatura fundem e confundem-se. É quando criador (Ser) acredita ser criatura (tudo que criou na vida) e já não mais sabe viver separado (apego), daí a dificuldade (resistência) em IR – descobrir-se de camadas acumuladas (desconstruir-se) para ser/manifestar todo o potencial que, desde sempre, o habita.

Bem disse o sábio indiano Ramana Maharshi; quando o mundo, que é aquilo que se vê, for removido, então se dará a realização do SER, que é aquele que vê.

(…) a história de quem vai e de quem fica. Pego emprestado o título do terceiro volume da tetralogia da excelente escritora italiana Elena Ferrante pra divagar novas/diferentes interpretações sobre os verbos Ir e Ficar.

A menina que vai – quando digo, em voz alta, quem vai e quem fica, palavras antagônicas – movimento/estagnação, curiosidade/comodidade, olhar em torno/olhar fixo, expandir/recolher – surgem em mente.

Assim sendo, quem vai é o ser que caminha (não necessariamente muda de espaço) em direção à realização da vida que ama/acredita (de acordo com valores e essência). Quem fica é o ser ocupado/acostumado que não cogita diferente maneira de “estar no mundo”.
E, enquanto vivo um período de “gestação” – ensaiando um novo IR –, sigo IDAS de seres especiais, corajosos e inspiradores que conheci ao longo dos anos. Uma destas pessoas é Raíssa Teles, cuja trajetória acompanho, encantada, por meio das redes sociais. Com ela, vibro em dobro porque me identifico com suas paixões: mar, simplicidade, minimalismo, liberdade, vida em constante aprendizagem.

Há pouco tempo, curiosa sobre a vida no mar e sobre como se deu o movimento/transformação/mudança, resolvi pedir à “menina que vai”, que me contasse um pouco da história toda.

E Raíssa começou contando da sorte que teve em encontrar um amor que partilha de seu projeto/sonho. Dádiva da vida; dois seres unidos, um desejo em comum – não um desejo qualquer, mas a realização de um propósito – algo abrangente, que envolve outros seres e pede responsabilidade (palavras da Raíssa).

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A história toda – O desejo em comum de Raíssa e Christof Brockhoff, seu companheiro há quase cinco anos, era morar num veleiro. A vontade de uma vida nômade e a paixão pelo mar alimentavam o sonho que, por um tempo, ficou de lado. Foram quase quatro anos entre Brasil e Europa – Christof é de Liechtenstein (principado entre Suíça e Áustria). Ora juntos, ora separados, foram amadurecendo a relação e dando formas ao projeto. Ao contrário de Chris, que cresceu velejando com o pai – skipper –, Raíssa não fazia ideia do que vinha a ser, na prática, a arte de velejar. Mas, sobre o mar, sua pesquisa era constante pois queria integrar o trabalho de autoconhecimento com a natureza e conectar estudo do mar com estudo do Ser. Dessa conexão nasceu seu principal workshop: M.A.R. – medo, amor, revolução.

No ano de 2017 Christof foi morar no Brasil e, com a certeza de que não viveriam em São Paulo, a ideia era comprar um Jipe 4×4, reformar e transformar numa casinha itinerante e, assim, levar seus projetos para diferentes cantos do mundo. Seria o primeiro passo para, mais à frente, comprar um veleiro.

Mas, a vida SINALIZA (antecipa!) e, no início de 2018, Raíssa esteve em Ilhabela, litoral de São Paulo, para uma expedição na qual trabalha com jovens o autoconhecimento e o empoderamento pessoal por meio da natureza. E foi durante este trabalho que sentiu o chamado: seu lugar não mais era o asfalto e sim, o mar. No mesmo período, Christof também viajou pra perto do mar e sentiu o mesmo. Um chamado em comum (amor de verdade + projeto que faz sentido = vida flui…). Uma ficha enorme caiu. Decidiram não mais comprar o Jipe. Cortaram custos, venderam carro, conseguiram o dinheiro necessário e, enfim, encontraram “o veleiro” e logo mudaram-se para a “nova casa”.

Reforça a velha máxima: é incrível a força que as coisas tem quando precisam acontecer.

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A primeira travessia (Rio de Janeiro a Ilhabela) à bordo de uma nova vida aconteceu em 22 de março – dia do aniversário de Raíssa – de 2018.

Escola diária – Dentre as tantas lições da vida nova, velejar tem se mostrado a tarefa menos complicada. Viver à bordo requer atenção constante, é exercício de disciplina e presença. Sem cuidados, a qualquer momento, o barco afunda, estraga, enferruja ou mofa. É preciso entender de mecânica, elétrica, ser o mais sustentável possível, aprender a possuir e consumir menos, estar em harmonia com o corpo – a necessidade de energia é maior que em terra firme.

Para além da lista acima, Raíssa acrescenta: o mar tem qualidades que fazem com que se trabalhe o poder da mente. Isolamento, impermanência e movimento constante, somados ao novo/desconhecido despertam medos profundos e também poder pessoal. Não há como/nem pra onde fugir da obrigação de olhar/encarar o que emerge.

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Tempo não é definido por relógios ou dias da semana, mas pelo barco, os ventos, as ondas, sol e lua. “Estar no mar/barco favorece nosso alinhamento com a alma. Nas cidades, é fácil esquecer que somos natureza. O ritmo acelerado/artificial nos afasta do que somos e de nosso real potencial e, muitas vezes, acaba por domestificar os seres para que se encaixem na linha de produção do caos. Estar no mar nos reconecta com nosso eu-selvagem, e isso é surpreendentemente potente! Aproxima-nos da real liberdade – não aquela que se traduz de forma inocente, fazer o que se quer, quando e como se quer-, a liberdade de SER, de explorar infinitas formas de criar realidade e de expressar a alma. O mar, enfim, mostrou-se um espaço que faz sentir-me VIVA (como nunca antes havia sentido)”, declara a empolgada menina que vai.

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foto by Bruna Arcangelo Toledo

No mar, não há como construir muros e, não importa em que parte dele se está, a sensação é, sempre, de unidade e plena igualdade. Isso não é só lindo, mas, absolutamente poderoso.

Aplaudo de pé a menina que escolheu IR e, hoje, vive, em parceria com seu amor, desafios e realizações à bordo do veleiro de 33 pés, do ano de 1979, chamado Mintaka – nome de estrela, uma das três Marias, do Cinturão de Orion. O casal está em Ilhabela (em uma poita e não em marina) fazendo curtas viagens, mas, a ideia, é comprar um veleiro maior (tipo um barco pirata antigo), reformar e transformar em uma escola dos mares que possa receber muita gente e velejar por todos os oceanos.

Sea Beyond, o projeto da Raíssa e do Christof, é um transbordar de tudo que vivem e acreditam. É uma escola em que o professor é o mar, o Mintaka; a sala de aulas e o casal; anfitrião de expedições que abordam, entre outros temas; autoconhecimento, relacionamentos e empreendedorismo social.

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https://www.sea-beyond.org/ … Vale demais a visita!

 

O maior pecado do mundo é não sintonizar rotina com o que faz vibrar a alma

Ando pensando em pecado. Do pecado de não se saber ou de por aí andar sem amar detalhes da rotina ou da paisagem percorrida. Do pecado absurdo que é não encontrar mar calmo pra derramar todo o potencial que habita-te. Não é crime hediondo? É crime e castigo. É crime não oferecer ao mundo o melhor que há em ti. É castigo a ti, que ao confundir deslumbramento com encantamento, acomoda-se e aposenta o verbo buscar.

Mas pra tua sorte, a vida é maior que ti e não vai deixar-te aí muito tempo, no lugar errado. De duas, uma; ou você acorda e parte pra ação sem adiar o alarme do despertador ou a vida te puxa o tapete sem deixar-te qualquer outra alternativa que não reconstruir. Recomeçar no lugar certo (a esta fase de ti), sem pecado – perto dos parecidos, dos que enxergam o que há de mais original em ti e, por saberem-te tudo que és, ajudam-te a trazer à tona tua estrela, por vezes escondida, ofuscada ou impedida de brilhar em espaços “não adequados”.

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“Algum tempo depois” o lugar/mar escolhido e comemorado na fase de vida anterior pode já não mais dar conta de todo potencial hoje transformado, lapidado, já quase sem nenhum resquício de crenças antigas. Vale lembrar: nada é estático, tudo muda o tempo todo, seres são mutantes e evoluem e o mar é calmo a quem o quer ver assim. Se o que enxergas hoje é o contrário da almejada calmaria de um dia é sinal de que alguma coisa está fora ordem. Alguma coisa acontece no seu coração… É hora de olhar pra dentro. Mudar de lugar ou mudar o olhar.

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O outro lado do pecado – Pecado é confundir habitual com natural – alertava Ghandi – só porque virou rotina ou disseram ser sua sina. Pecado é separar aprendizado de rotina. Pecado e egoísmo maior do mundo é passar a vida – perder tempo – sendo o que não é e guardando em si tudo que existe de belo e único que poderia transbordar ao mundo. Pecado é insistir em viver uma rotina que combinava com o que VIBRAVA e não com o que se descobriu agora VIBRAR.

Aqui, cabe o mais lindo de Fernando Pessoa:

Para ser grande, sê INTEIRO:

Nada teu exagera ou exclui.

Sê TODO em cada coisa.

Põe quanto és no mínimo que fazes.

Assim, em cada lago a lua TODA

BRILHA, porque alta VIVE.

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Não se é o mesmo a vida toda. O que faz sentido e vibra na alma hoje pode não ser eterno. Quase nunca é. É preciso morrer varias vezes numa vida – Nietzsche. Metamorfose ambulante humana. Liberdade é não abrir mão de insistir em fazer/viver o que se ama. Liberdade é coragem de fazer um movimento quando o espaço já não é suficiente pra tudo aquilo em que te transformaste.

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E é praticamente impossível descobrir talento pra música num lugar em que não há instrumentos musicais – exemplo do professor Clóvis de Barros que não canso de lembrar/citar. E cada pedaço do mundo tem uma geografia própria que pode ser usada para mudanças/evolução, já informou-nos a ecologista e antropóloga budista Joan Halifax. Assim, deslocar-se não é pecado, pelo contrário, é elemento fundamental pra dar vazão ao belo e singular que habita-te.

 

 

O que pulsa por dentro muda o tempo todo – Janela como espaço de encantamento

Espaço novo

Não cabem mais ex-passos

Espaço incerto

O interno vai caber no externo?

Os novos passos, aos poucos, espaçam-se.

 

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Da janela (literalmente) lateral do meu quarto de dormir a vista é do Miradouro Santa Luzia, na histórica região de Alfama, Lisboa, Portugal. Se for pra morar um tempo na capital portuguesa, que seja na parte mais antiga, cheia de vida, alma, cantos, contos, encantos – sempre pensei assim. Em São Paulo, seria Avenida Paulista. Por aqui, o Miradouro Santa Luzia é meu lugar preferido. É lindo e porque é lindo todos merecem visitar e fotografar.

Difícil algo tão bonito permanecer intacto/deserto/vazio/abandonado. Desbravar beleza é desejo humano. Assim, (quase) tudo que é lindo vive preenchido e, ora ou outra, satura-se. E por estar diante de tanta beleza, minha janela vive preenchida, dia e noite, sem intervalo. É gente de todo o mundo, música de todos os tipos, flashes e buzinas. Soma-se, ainda, o ir e vir barulhento dos TuK Tuks e do famoso elétrico 28.

 

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Cinema na janela – Quando estudei cinema, meu mestre era o italiano Michelangelo Antonioni (dos “tempos mortos” – filmes mais pausados). Gostava também dos diálogos do Eric Rhomer e da câmera do Godard. Gosto de Julio Meden, Patrice Leconte, Wim Wenders…amo cinema! Mas o filme da minha janela é moderno demais, acelerado demais, barulhento demais. Lisboa pulsa 24 horas na minha janela. Lisboa me expulsa da janela. A janela que encanta é a mesma janela que cansa. E quando o mundo dos excessos torna-se insuportável (ultimamente quase sempre), fecho cortina e janela. Mas o filme continua, sem imagens; cheio de som e fúria.

 

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Há tempos que uma janela não assume papel tão importante em minha vida. Quando “era jovem”, passava horas sonhando à janela com uma música romântica de fundo na “radiola” do meu quarto, em Curitiba. Amava observar o movimento das nuvens (quando, em São Paulo, há uns cinco anos, conheci e entrevistei o incrível músico e fundador do Congreso de Observadores de Nubes, Germán Diaz, morri de encantamento! http://laespiral.deusto.es/observador-de-nubes-musico-y-criador-de-capones/), amava ainda mais quando um avião passava. Era um ritual, como um momento de meditação diária (nem eu sabia que já meditava!). Sentava-me em cima da escrivaninha, colocava o disco e sonhava olhando pro céu. Pensando agora; a janela acompanhou os momentos mais meus na juventude.

Hoje, a janela impregnada de beleza, que tantos deslumbramentos suscitou, acelera o desejo de novas – e calmas, silenciosas – paisagens. E então, no sonhado novo espaço, na janela lateral do meu quarto de dormir, o filme aconteceria (acontecerá) em câmera lenta. Ou em preto e branco. Ou mudo. Menos informação, mais contemplação. Menos vozes, mais sensações. Apenas paisagem. Mais espaço pros intervalos entre um pensamento/sonho e outro.

 

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Dualidade – A história da janela reforça a dualidade da vida/das coisas, a ideia do “devir” abordada por Nietzsche e resgatada por Viviane Mosé em O Homem que Sabe; a vida impõe desconstrução e reconstrução constantes. Tudo que alguma vez teve uma propriedade definida experimenta a desintegração destas mesmas propriedades. Todas as coisas trazem, em si, seu contrário. Um dia já gostei do filme da minha atual janela. Hoje, o desejo é de espaço/vazio pra enxergar outra coisa na janela. E eu? SOU o que ERA quando gostava do que conseguia ver na janela? Certamente há, ainda, um pouco de identificação com quem julgava SER quando amei a vista dessa janela e, assim, uma parte minha “aceita” manter-se confortável dentro do espaço conhecido. Outra parte, mesmo com um pouco de medo, sabe, lá no fundo, que pode VIR a SER o que quiser – o que fizer bem, o que fizer sentido, tudo de melhor que puder SER. E sabe da importância da mudança de espaço e, consequentemente, de janela, para dar inicio ao filme que, além de desencadear o que de melhor há em mim, colocar-me- à em ação.

 

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Porque acredito, como disse o professor Clóvis de Barros Filho, que há o LUGAR certo para que eu desenvolva a excelência de mim mesmo (meu propósito/dom). Ou seja, não adianta, internamente, existir um potencial (e há em todo ser) se o ambiente não permite que tal potencial se manifeste. O local é importante e influencia sim no desenvolvimento do melhor de si. Clóvis de Barros exemplifica: é muito difícil descobrir talento pra música num lugar em que não há instrumentos musicais… A pessoa pode passar a vida inteira sem saber o que a natureza esperava dela e então a vida tende a ser menos espetacular… e o ser acomoda-se. Pior; acostuma-se.

O que minha alma anseia expressar por meio de minha existência?
Thiago Berto, fundador da escola livre Ayni (pra guardar pra assistir https://www.youtube.com/watch?v=9OYKLjrfB4g)

 

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O professor Clóvis encontrou seu lugar na sala de aula e acredita que, neste mundão gigante e diversificado, cabe a cada SER ir atrás da “sua praia”. Descoberto seu espaço, a busca da excelência dentro de sua própria especificidade é felicidade. Porque cada ser tem uma natureza única e há um pedaço do mundo no qual expressar e colocar em ação tal natureza é simples e fácil. Tudo flui e encaixa. Aqui, um vídeo bem curtinho de um cara que fala muito (e bem) sobre o assunto; Gustavo Tanaka – https://www.facebook.com/authorgustavotanaka/videos/345010522531039/. É possível ainda, ir um pouco mais além e citar a importância da sintonia entre propósito externo e proposito interno. Eckhart Tolle aborda o tema em seu livro Um Novo Mundo. E mais; o lugar perfeito hoje pode não mais o ser amanhã. O que pulsa por dentro muda o tempo todo.
Mas quando no lugar certo, diante da janela adequada, no caminho de menor resistência e maior fluidez, o ser segue se aperfeiçoando para, enfim, devolver ao mundo, em forma de performance, o que o mundo lhe deu em forma de potencialidade.

Vídeo com a palestra intitulada MOTIVAÇÃO, do professor Clovis de Barros.
https://www.youtube.com/watch?v=q4E8g9L2PK4

Embriagado de tanto amar, desequilibra-se ao mar – não se afoga, transborda (amor)

 

Entre fases e frases, vive-se.

Entre terra e mar, equilibra-se.

Pra cada fase, uma frase

Que leva a outra fase.

Pra cada passo, um pouco de mar

Que leva a outra terra

O amor por se amar.

 

Há fases de frases

E há fases que não bastam frases.

Há tempos em terra

E há tempos em que chão é pouco.

 

Cansado de frases e chão

Propositalmente, desequilibra-se o equilibrista.

Muda de fase e, embriagado de tanto amar,

Lança a alma ao mar

Que lava, leve e leva.

 

Não mais em terra

Vive a utopia dos mais românticos

Insiste na intensidade do belo ao limite

Segue aprendiz dos próprios sonhos.

 

 

E por ser tudo tanto e todo

É à margem, na solidão e no silêncio, que se descobre.

Descobre-se de tudo, do todo e de tantos.

E, de cara com a essência (sua),

A missão única se apresenta.

 

Vida é isso;

Um eterno construir frases pra dar conta de diferentes fases (de si/da vida)

Um vasto caminhar por terra, mar e amar.

 

Vida é isso;

Evoluir partindo de si

E depois daí, transbordar por aí

O melhor que há em ti

Porque sem deixar legado

Não há vivido, nem há sentido.

Há apenas, um inútil ensaio do que poderia ter sido.

Entre Ser e Estar – onde a estrada faz a curva, a vida se desdobra e passa a SIGNIFICAR

Afinal, de que se trata o tempo por aqui? Quem SOU? Qual a razão de determinados encontros e outros tantos desencontros? Por que tanta cobiça, tanta coisa, sempre mais e mais? Quem sou EU no meio desse tanto todo de CAOS? Quem sou EU em tudo que há em mim?(http://www.nowmaste.com.br/da-perfeicao-da-essencia-fernanda-nicz/).Quem/o quê é alma (essência) e quem/o quê é mente (ego) no espaço do corpo?

SER HUMANO é algo complexo – mente (EGO) e alma (SER/essência) que habitam um corpo por determinado tempo, sendo que passam a maior parte desse precioso tempo em incessante conflito. É possível viver em paz – simplesmente SER, serenamente, com consciência e presença – depois que se descobre a existência poderosa/dominadora do EGO?

Eliminar o ego e não mais viver escravo dele parece requerer toda uma vida. Ou não.

Ou nada disso, afinal, como viviam os seres antigamente, sem sequer ter ideia da existência e diferenciação de mente e alma? Eu era simplesmente EU, sem mais.

Simples assim. Mas o passar dos anos trouxe novos saberes. E agora que se sabe como ignorar e não questionar?

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SER e ESTAR – E então, o ser passa a prestar atenção em quem está no comando; ego ou alma? Atenta-se a SER, cuida-se para não simplesmente deixar-se ESTAR/identificar-se com alguma função/forma/objeto/pessoa/problema/pensamento/emoção. A identificação inicia-se com o fascínio do ego, que se deixa hipnotizar, deslumbra-se e sente-se atraído por algo a ponto de esquecer-se de SER.

Identificar-se = encontrar-se/misturar-se/confundir-se ou ainda: entrar em sintonia, vibrar em consonância com algo.

Encontrar-se em algo significa perder a noção de separação entre SER/sujeito e objeto. Significa confundir-se com o objeto/função/pessoa e esquecer-se de quem é.Coisas do EGO. E o ego se vicia tanto em determinadas identificações que passa a precisar delas pra sentir-se VIVO. Eis aí o APEGO. As identificações ganham força e tornam-se crenças – cada vez mais arraigadas.

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Na natureza selvagem – Os oito meses de andança e peregrinação por ecovilas e projetos pela Itália e Portugal fizeram perceber, em parte, a diferença entre SER e ESTAR. O tempo e o ritmo na natureza faz alma e mente falarem quase a mesma língua – SE É, simplesmente, mais naturalmente. Quase tudo que SOU vêm à tona, escancaro-me a mim mesma! Na cidade, o excesso de sons, informações e seres confunde QUEM SOU e exerce, facilmente, fascínio sob o EGO. Faz-se necessária uma imensa serenidade para não se deixar identificar/desequilibrar pelo bombardeio
desorganizado de informações/coisas/pessoas pelo caminho.

No campo – na natureza – senti mente/alma/corpo mais saudáveis e equilibrados. Por aqui (na cidade), inquietude, dúvidas, alguns medos e dores. Por lá, quando deitava; “capotava”. Aqui, mesmo morrendo de sono; a mente não para. Por lá, quase nada ansiosa; aqui, ansiedade pura. Lá, presença e concentração (sem esforço); aqui, distração constante (mesmo meditando). Lá, coração tranquilo; aqui, coração sem chão.

Por lá, senti/percebi alma/mente/corpo de uma forma nunca antes experimentada nestes 40 anos de vida. SER e ESTAR pareciam uma coisa só. A sensação era de constante estado meditativo. Já aqui, o tempo parece confundir o ritmo do ESTAR e o distanciar de SER. Sinto os dias se arrastarem, sinto mais solidão, menos presença, mais turbulência, mais coração apertado. A fragilidade escancara-se. Lá, o equilíbrio (acho que posso dizer que conheci um pouco da força e da energia apaziguadora da natureza) neutralizava o agitado coração. Aqui, o EGO foge ao controle. Por lá, por vezes, parecia anular-se.

fernanda nicz

Aqui ou Lá – Diferenças que têm ocupado meus pensamentos. Dias seguem oscilando entre o querer de volta a serenidade despertada (busca de quase toda uma vida) e a imersão cultural oferecida por aqui. Preciso (ou acho que preciso?) da cidade grande para viver porque amo a cultura latejante. Mas preciso também (cada vez mais) da paz facilmente propiciada por lugares em que SER e ESTAR se confundem; integram-se. Até porque, exatamente neste momento, a vontade maior é de fazer do ESTAR uma continuidade do SER, ou seja, ESTAR de acordo com SER (e cada vez mais consciente do ego, anulá-lo). Viver da forma que acredito.

Não estou afirmando que a única maneira de ser feliz é “viver em ecovila/natureza”.

Acredito que alguns seres vivem em paz e mantém o EGO sob controle na cidade.

Que bom, a vida é feita de escolhas, viva as diferenças! É responsabilidade – no processo evolutivo individual – de cada ser encontrar seu lugar no mundo (onde, em que ambiente, seu DOM se potencializa). É uma bonita busca/jornada. A grande questão é descobrir qual a melhor maneira de fazer da existência algo ORIGINAL, que acrescente ao todo e faça diferença no mundo. E é possível também que, até hoje, seu potencial funcionava na cidade grande e, de agora em diante, algo em ti mudou e tens a necessidade da natureza, ou o contrário. Por que não?

fernanda nicz

DEVIR/VIR A SER – A vida impõe desconstrução e reconstrução constantes, como bem disse Viviane Mosé em O Homem que Sabe. O princípio da vida é o DEVIR, ou seja, o VIR a SER, a transformação, a mudança. Tudo que alguma vez teve uma propriedade definida experimenta a desintegração destas mesmas propriedades.Todas as coisas trazem em si, o seu contrário. É do eterno conflito de contrários que nasce o devir; o dia se torna noite, o quente; frio. Há que se perceber o que cada situação manifesta e o que oculta; onde se desdobra.

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O ser nasce pura essência 

Cresce, conhece, aprende

Então seu ego se constrói, encanta-se, identifica-se

E chega uma hora em que o Ser sente a necessidade de desaprender, desprogramar-se/desconstruir-se

Para, então, retornar à essência e simplesmente SER

Informações e inspiração

Livros: Eckhart Tolle (Um Novo Mundo)

Viviane Mosé (O Homem que Sabe)

Manual do professor de kundalini yoga (formação que estou fazendo)

Lugares: http://tribodar.com/

https://www.facebook.com/paginasitioamoreza/

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Fernanda Nicz

Do meio do caminho -intervalos e viradas rumo ao caminho do meio

(…) é quando ousa deixar (saindo da zona de conforto) de ser o que é que podes, enfim, iniciar o processo de tornar-se tudo o que pode ser.

Bata, e se abrirá a porta. Desapareça, você brilhará como o sol. Caia, que se levantará aos céus. Torne-se nada, e se transformará em tudo.

Esqueça segurança. Desdobre seu próprio mito.

Quando começas a caminhar, o caminho aparece.

RUMI.

Iniciar o processo de tornar-se tudo o que pode ser =ser humano como eterno aprendiz.

A vida – o que SOMOS – é um presente de Deus. O que nos tornamos é presente nosso a quem nos deu a vida.

Luna está engasgada. Um nó no peito, uma estagnação física e um vazio ao redor. Ensaia um movimento, mas não consegue visualizar a luz, o sol, o amor maior. Luna criou seu projeto de acordo com suas crenças, sua verdade mais íntima. Foi à estrada, só, com a cara, a coragem e muita vontade. Vontade de ver o mundo e formas diferentes de habitá-lo. Vontade de experimentar aproximar-se mais da natureza, de seres que pensam parecido. Fez e aconteceu.

Hoje vive um período mais nebuloso. Um intervalo da vida escolhida. A vida é feita deles; intervalos e viradas. Bom saber/acreditar que, depois de um deles só pode vir o outro, ou seja, se hoje Luna vive o intervalo é sinal que em breve é a vez da virada.

O intervalo de Luna se assemelha ao ponto zero da escritora Clara Baccarin.

No ponto zero o tempo desacelera e estou travada na falta de vontade de mostrar qualquer coisa, seja conhecimento, postura, sorrisos, companhia, tempo, imagem. Quero ser de verdade, à vontade. LEVE.

No ponto zero não tenho salário, não faço esforço para aprender o que não me faz sentido, para transferir o que não acredito…

Podemos, então, por favor, enfim, de uma vez por todas, viver uma vida só cercados do que realmente acrescenta?

trechos do livo da Clara Baccarin acrescidos do meu olhar/sentir/pensar.

 Intervalo é pra repensar /reorganizar, desaprender/ aprender. É momento de ensaiar a virada/ volta – com toda a força – à vida que/como se acredita. No caso de Luna, desta vez, com mais LEVEZA em seus dias, em seus voos.

Mas, antes disso, o que, afinal, provoca a chegada de um intervalo/ponto zero?

Uma rotina desgostosa instalada num momento de pura distração em que se “deixa levar/seduzir pelo meio em que se vive”. E com o passar dos dias, não tem jeito, Luna cansa, revolta-se (ao deparar-se com valores tão distantes dos seus) e o corpo, sábio que é, pra chamar a atenção, adoece. CAI de cama, literalmente; física, espiritual e emocionalmente. Porque fazer o que não se ama cansa mesmo e não encontrar tempo pra fazer o que faz sentido frustra muito. Porque contrariar os próprios valores faz mal à saúde.

Caia, que se levantará aos céus. Torne-se nada, e se transformará em tudo.

Esqueça segurança. Desdobre seu próprio mito.

Quando começas a caminhar, o caminho aparece.

 Pois, depois de vivenciar profundamente o intervalo/ponto zero é hora de respirar fundo, encher-se de coragem e reiniciar o caminhar. Porque a estrada é infinita e Luna tem certeza que nasceu pra peregrinar. E não há mal nenhum em perceber que, numa curva, sem querer, errou a entrada. Não é obrigatório ir cegamente em frente, avançar no que não se acredita. Não precisa ser assim. Como disse o filósofo e educador indiano Jiddu Krishnamurti, anos atrás, não é sinal de saúde estar bem adaptado a uma sociedade doente.

A estrada nunca amedrontou Luna. O acomodar-se, sim. Afinal, só se tem medo quando não se está de acordo consigo mesmo, já disse Herman Hesse.

Luna gosta de contar esta historinha do sapo para ilustrar o grande, silencioso e longo mal causado pela acomodação na água morninha/zona de segurança/conforto tão almejada por tantos seres.

Se puser um sapo numa panela de água fervendo ele pula fora e salva a própria vida. Mas, se colocar o sapo numa panela de água fria e for esquentando aos poucos, ele não percebe a mudança da temperatura, vai se ajustando à temperatura e, quando a água está perto do ponto de fervura, o sapo tenta saltar para fora, mas já não consegue, pois está cansado devido a tantos ajustes corporais que teve que fazer durante as variações térmicas. Aí então ele morre.

Há quem diga que o motivo da morte do sapo foi a água fervendo, outros afirmam que, na verdade, o que o matou foi a sua incapacidade  (ou o medo)  de decidir quando pular fora.

 obvious: http://obviousmag.org/paula_lario/2016/a-arte-de-saber-quando-pular-fora.html#ixzz3yatWeR37

 

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A comodidade é característica do ser “normal” hoje. E o que é considerado um ser normal hoje? Considerado por quem e baseado em que critérios?

Luna podia divagar dias sobre o assunto. Não só ela, Jean-Yves Leloup, Pierre Weil e Roberto Crema, há alguns anos, escreveram um livro Normose: A patologia da normalidade. Crema afirma que uma pessoa normótica é aquela que se adapta a um contexto e a um sistema doente, e age como a maioria. Para Leloup, a normose é um sofrimento, a busca da conformidade que impede o encaminhamento do desejo no interior de cada um, interrompendo o fluxo evolutivo e gerando estagnação (intervalo/ponto zero).

Faz parte chegar ao intervalo/ponto zero. O que entristece é observar e conviver com tantos seres que ignoram tal momento quando ele surge. Dizem não ter tempo pra entender o que se passa ou mudar algo. “isso é coisa de gente desocupada”. Ai, ai, ai, Luna não crê que seja por aí.

Bom seria, pensa ela, se cada ser vivesse seu intervalo/ponto zero em sua plenitude e então percebesse que é hora de abandonar a zona de conforto/normose  e enfim, ousar  ,com coragem (agir com o coração), viver de vez de acordo com o que acredita.

Esqueça segurança. Desdobre seu próprio mito.

Quando começas a caminhar, o caminho aparece.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Da arte de confiar na incerteza – aventura e superação na França

Fernanda Nicz

Depois de tanto ouvir falar e muito ensaiar, a experiência de colher uvas no sul da França, enfim, aconteceu, e preencheu mais uma página do meu livro da vida. O “antes” foi recheado de expectativas – trabalhar por um mês na natureza, na bela região da Provence – e dúvidas – demoraram a informar o dia de início do trabalho e não havia certeza de quantos dias seriam.

Fernanda Nicz

A floresta – Por fim, num sábado, no início de setembro, “embarcamos”, de Blablácar (https://www.blablacar.pt/), eu e um casal de amigos. A viagem foi rápida e tranquila. O condutor nos buscou na porta de casa em Lisboa e nos deixou em frente ao camping em Chateauneuf du Pape. Melhor impossível. Chegamos tarde da noite. O camping era caro demais e, àquela hora, estava fechado. Com uma lanterna, montamos as barracas na floresta em frente ao camping. Dormi muito bem escutando o movimento das árvores (gigantescas!), forte – parecia que estava perto do mar. Na manhã seguinte, fizemos picnic por ali e fomos conhecer o centro da Vila. Caves e degustação de vinhos por toda a parte. É uma pequena cidade charmosa, medieval, mas tudo é absurdamente caro.

Dois dias depois da chegada acordamos cedo e fomos ao encontro de quem nos empregou para, pensávamos/esperávamos, começar a trabalhar. Não trabalhamos. Disseram que teríamos que esperar uns três dias ainda porque as condições climáticas não favoreciam a colheita.

Fernanda Nicz

Os primeiros dias foram bonitos, calmos e poéticos na floresta. Queria ficar ali. Mas depois da terceira noite fomos “expulsos do paraíso”. Enquanto tomávamos café da manhã na nossa mesinha, em meio às árvores, chegaram quatro pessoas fardadas. Polícia e guarda florestal. É proibido acampar ali; tínhamos meia hora pra desarmar as barracas e partir. Tudo feito, sentamos entre a floresta e o camping. Nenhuma ideia do que fazer ou aonde ir.

Fernanda Nicz

Fernanda Nicz

Fernanda Nicz

Mudanças – Resolvemos acampar perto de um lago e no dia seguinte fomos para nossa terceira “casinha”: um barracão empoeirado com alguns tratores velhos. Barracas armadas na pequena parte externa, na grama. Lá vivemos muitos momentos/aventuras que não vou detalhar aqui, mas que pareciam cenas de filme.

Depois de três mudanças, fomos, enfim, à morada definitiva; atrás da fábrica que nos empregou. Ali tínhamos menos desconforto e uma vista de tirar o fôlego. Ruim foram algumas noites de vento absurdamente forte e frio. Pra tentar estabilizar a barraca que parecia que ia voar, coloquei pedras pesadas dentro e prendi com corda em pallet.

Fernanda Nicz

Ócio e tempo – O tempo passava devagar. A razão de estarmos ali, o trabalho, parecia não chegar nunca. No longo tempo de espera pensava: algum aprendizado há de surgir na estagnação, da paciência. Conversando com uma grande amiga questionamos: “por que estamos passando por dificuldades – que pareciam testes de resistência (falta de casa/lugar para acampar, falta de água, demora a trabalhar…)? O que temos que aprender com estas experiências?”

Na tentativa de aquietar a mente e cessar o pensar, buscava a energia do sol. Fechava os olhos, respirava fundo e procurava aconchego em alguma parte do meu ser.

Fernanda Nicz

Fernanda Nicz

Fernanda Nicz

Enfim, uvas – Quase uma semana depois da chegada, o primeiro dia de trabalho. Sem grandes segredos; tesoura numa mão, balde na outra e ritmo. Em meio à natureza e com amigos, muitas vezes cantando ou contando histórias, no início foi divertido. Com o passar das horas e dos dias; alguns cortes nos dedos e mãos, dores na lombar e cervical. O que acontece é que muitas vezes há pedras e plantas que picam, outras vezes é preciso muita força e/ou habilidade para tirar o cacho colado entre troncos. A posição para encontrar todos os cachos de uma planta grande e cortá-los não é tão simples como parece.

E, para mim, a França sempre foi um país distante, estranho (obviamente há exceções, sempre, mas o fato é que me sinto melhor e mais feliz na Itália, em Portugal e no Brasil, por exemplo). Em sua maioria, os moradores da região onde estávamos eram fechados/reservados. A comunicação não fluía fácil. Não há muito esforço em falar outra língua. Cafés, restaurantes e comércio ficam abertos por pouquíssimo tempo. Para ir ao mercado (mais afastado do centro da Vila), pegávamos carona. Algumas vezes reciclávamos comida ou pedíamos nas “Boulangerries” se havia pães ou bolos “parados” (do dia anterior, mas que estavam ainda deliciosos). Nunca comi tanta baguete na vida!

Dias livres, novos dias – Quando não estava entre cachos de uvas, lia, escrevia, caminhava ou refugiava-me na floresta, perto do lago, do sol e do silêncio. Num fim de tarde, um senhor pescava. Eu e amigos descansávamos ao sol. Em determinado momento, o senhor, que parecia angustiado, puxava a linha que se enroscou numa planta. Ele não sabia nadar. Depois de muita insistência (dos amigos), entrei na água, fui até a planta e desenrosquei a linha. O senhor puxou devagar, feliz da vida. Era um peixe grande. Minutos depois sua expressão mudou, parecia decepcionado; perdeu o peixe. O peixe ganhou sua vida de volta e eu fiquei feliz por, indiretamente, ter salvado o grande peixe. Dia inusitado.

Fernanda Nicz

Fernanda Nicz

Fernanda Nicz

E assim passou-se quase um mês (5 de setembro a 2 de outubro) sendo apenas treze dias (a colheita depende de muitos fatores) de trabalho. Experiência válida, mas confesso que imaginei diferente. Pensei que trabalharíamos mais. Pensei que não seria tão difícil encontrar um lugar para acampar. Pensei tantas coisas. Coisas de expectativa.

Mas não se deve pensar tanto, esperar tanto, imaginar tanto. O tanto será sempre um tanto suficiente para bagunçar algo arraigado dentro da gente. E não é a gente que escolhe todo este tanto. A gente escolhe dar o primeiro passo (a direção), ir e vivenciar mas não escolhe, define ou comanda o que virá – vem o que precisa vir. Trata-se de sintonia.

Dia destes assisti um vídeo que explica melhor o que estou aqui a tentar dizer:

O autor, Gustavo Tanaka fala sobre a “arte” de confiar na incerteza.

É nas incertezas que a vida opera. A incerteza é o campo das infinitas possibilidades.

“Existe uma inteligência por trás de todos os acontecimentos. Nada é por acaso. Ninguém entra e ninguém sai da vida de ninguém por acaso. Não se enfrenta desafios por acaso. As coisas não mudam por acaso. Tudo é parte de um movimento completamente orquestrado e incrivelmente sincrônico. A vida está operando para colocar as coisas que cada ser PRECISA vivenciar.”

Assim, aos poucos, a ficha foi caindo e hoje consigo listar o que precisei vivenciar na “novela da uva” – como a querida amiga Bianca Sampaio, que acompanhou detalhes pré-viagem, chamou este episódio da minha história.

Fernanda Nicz

Fernanda Nicz

Fernanda Nicz

Lista aprendizado da “novela da uva”

– Não ter expectativas. Fazer a escolha – parte que me cabe – e, a partir daí, entregar, confiar e não tentar resistir a situações que se apresentam. Respirar fundo e viver o presente tal como é e não ficar triste/frustrada/decepcionada por não ser do jeito que eu gostaria que fosse.

– Ser paciente, saber esperar, ser solidária, saber viver em grupo. Perceber que cada ser funciona de um jeito – prioriza determinadas coisas e tem seu próprio ritmo. Conviver é arte.
Conviver com quem se escolhe não é fácil, imagine conviver com quem não se escolhe?
Estávamos em mais ou menos 12 pessoas (durante um mês).

Apesar de tudo, valeu a pena. E, de qualquer forma, o cansaço físico ali foi menos pior que o estresse emocional – cansaço mental – que vivi quando trabalhei por alguns meses num restaurante na cidade grande.

Vivendo, trabalhando, aprendendo. Mas sigo com a vontade e a crença de que se deve viver e trabalhar no que se AMA. No meu caso, o que pulsa mais forte é o ESCREVER. Escrever para descobrir-me desconstruindo e transbordar experiências ao mundo.

Fernanda Nicz

Descalço sobre palcos – a dor e a delícia de ser o que se é

Fernanda Nicz

Os dois maiores presentes que se pode dar a um filho são raízes e asas (Hodding Carter).

Raízes = base, valores, harmonia, estrutura. Asas = ousadia, desapego, coragem, liberdade.

Não tenho filhos, mas imagino quão difícil deve ser educar prezando por um equilíbrio entre os dois pontos. Paulo Coelho encontrou um elo: as ASAS podem levar o ser mais longe, permitindo que conheça as RAÍZES dos seus semelhantes – e aprenda (ainda mais) com eles.

De raízes e asas. Das diferentes escolhas – e do respeito de cada ser com a escolha de outro ser. Transformação, mudança e aprendizado podem ser vivenciados tanto por quem permanece como por quem ousa ir mais além do conhecido. Por quem tem mais raiz ou por quem utiliza mais as asas. Há os que ficam e têm asas bem guardadas pra quando quiser voar e há os que partem que conhecem bem suas raízes a ponto de saber pra onde (quando quiser) voltar. Não há apenas uma forma/formato de viver nem somente uma maneira de interferir ou melhorar o mundo, nós mesmos ou o que/quem nos cerca. Entre tantas possibilidades, uma coisa é certa: é possível descobrir-se e transbordar amor independente da distância e do tempo que se afaste do ponto/local de origem.

Dos espaços – Há quem prefira viver e evoluir dentro de determinado espaço. Há quem precise habitar novos/diferentes espaços pra crescer, trocar, transbordar. É da necessidade de cada ser.

Espaços físicos são palcos para interpretarmos nossa evolução espiritual. Muitas vezes, temos vontade de voltar/ir a algum lugar pra resgatar ou viver algo que sentimos/intuímos que precisamos viver. Mais uma vez – ir ou ficar – é da necessidade de cada ser.

Fe Nicz

O meu ser, ao menos por enquanto (desde maio de 2014), por mais um tempo, escolheu a viagem, a estrada, diferentes e novos espaços como modo de estar no mundo. E, recentemente, dei-me conta de como há gente querendo usar as asas, mas com dificuldade de entender como fazer para, por exemplo, sobreviver… Afinal, como se manter na estrada por tanto tempo? Vou dar a minha fórmula, bem pessoal, portanto:

1ª – não preciso de muita coisa (aliás, quase nada) material pra ser feliz. Desapego realizado com êxito! O que venho treinando ultimamente é o desapego – bem difícil, mas não impossível – dos ditos “dramas pessoais”.

2º – tenho conseguido me financiar para meu ir e vir. Por exemplo, recentemente, trabalhei num restaurante em Lisboa por dois meses e, em breve, devo ir ao sul da França colher uvas (vindima).

Com alguns trabalhos como estes (temporários) consigo seguir viagem fazendo o que mais amo: escrevendo (já que por enquanto não consigo viver só da escrita). Busco lugares e pessoas inspiradoras (http://www.nowmaste.com.br/vida-simples-leve-e-colorida-gente-que-vive-o-que-ama-na-vida-por-fernanda-nicz/), vivo por um tempo em ecovilas (http://www.nowmaste.com.br/a-vida-real-numa-ecovila-por-fernanda-nicz/), conheço projetos interessantes e compartilho.

E abusar das asas – repleta de boas intenções comigo mesma e com a humanidade – não é fuga, é simplesmente viver a vida da forma como acredito e do jeito que penso que melhor posso acrescentar ao mundo.

Fe Nicz

Dor e delícia – Toda escolha/estrada traz o bem e o mal, o belo e a dor. Às vezes no meio de um voo de um canto a outro, deparo-me com uma saudade incontrolável do carinho da família e dos amigos. Neste caminho, a incerteza do amanhã bate direto à porta, a solidão (fundamental e de que tanto gosto), por vezes demora-se demais. Tudo isso faz parte, não apenas da escolha, mas de algo já inerente a cada ser: a dor e a delícia de ser o que é (Caetano Veloso).

Cada serzinho ganha uma vida inteira pra descobrir como (por meio de suas escolhas) fazer de sua dor e sua delícia algo maior, uma obra de arte – única –, um presente (propósito de vida) que deixará como legado. Para realizar a grande obra da vida, uns utilizam mais as raízes, outros as asas e é aí, nas diferenças, que a vida ganha beleza.

No meu caso, neste momento, transformar dor e delícia em arte (textos) pede um incessante caminhar – uso prolongado das asas. E assim sigo, em pleno voo, tentando (como todos os seres, a sua maneira) lapidar minha obra de arte.

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A querida Ariana Chediak (http://www.arianachediak.com.br/aura-soma/), que fez a aurasoma pra mim, descreveu de forma bonita: “és viajante contínua da busca. Tu primeiro andas, peregrina, depois encontra, em meio a tudo que viu e viveu de diferente, o que há em comum (povos, crenças, culturas, valores). Neste ponto comum faz a união, apresentando caminhos alternativos aos seres. A escrita é teu instrumento de unir diferentes povos”. Cada ser tem uma trajetória.

Onde meus talentos e minhas paixões encontram as necessidades do mundo, lá está o meu caminho, o meu lugar – Aristóteles.

Fe Nicz

Utilizar asas não significa “largar tudo e cair no mundo” – Defendo a beleza das diferenças, assim, sei que “largar tudo e cair na estrada” não é a única forma de ser feliz ou de mudar algo.

Uma amiga de São Paulo, a Gabriele, que tem um bonito projeto, o Think Twice Brasil (http://www.thinktwicebrasil.org/novo/), abordou o assunto recentemente. Licença Gabi, pra compartilhar aqui – já que pensamos da mesma forma. A Gabriele costuma dizer que não “largou tudo”, apenas deixou para trás aquilo que já não fazia mais sentido pra ela. O Think Twice é um plano de viagem para países da África e Ásia em busca de pessoas que trabalham para melhorar, efetivamente, a vida do próximo. A ideia é conseguir aplicar a experiência em algum retorno social no Brasil. Segundo a Gabriele, é um movimento de conscientização, de resgate de valores. Como o objetivo da viagem é sentir na pele a disparidade social, buscam-se transportes mais populares e maneiras econômicas de hospedagem.

FE Nicz

O Minideias segue um caminho parecido, por isso compartilha histórias inspiradoras de quem “largou tudo e caiu na estrada/mundo”. Explicado o “largar tudo” (obrigada Gabi!), vamos entender melhor o “cair na estrada”. Talvez, como no meu conto favorito A Donzela sem mãos – do livro Mulheres Que Correm Com os Lobos, da Clarissa Pinkola-Estés, seja parar de se chocar com os muros criados por nós mesmos e, em vez disso, aprender a atravessá-los.

(…) as mulheres consideram que a preparação para sua descida iniciática (transformação e despertar) vai se desenrolando ao longo de muito tempo, às vezes de anos, até que afinal e de repente, lá caem elas penhasco abaixo para dentro das corredeiras, na maioria das vezes empurradas, mas de vez em quando com um mergulho gracioso do alto dos rochedos…só que isso é raro.

(…) abandonar algo, assumir a própria identidade, penetrar na profundeza da selva simplesmente porque precisa (…) partir sob uma luz diferente, com um chão desconhecido por baixo dos pés (…) vulnerável, pois não tem onde se agarrar ou apoiar. O destino a leva a viver como andarilha- ela sabe que só o caminhar a fará conhecedora do caminho. Quem a acarinha é o vento.

Qualquer caminho leva a toda parte

Qualquer ponto é o centro do infinito

E, por isso, qualquer que seja a arte de ir ou ficar

(…) não há estrada senão na sensação

É só através de nós que caminhamos.

Fernando Pessoa

Tempo, tempo, tempo, tempo.

Tempo soberano. Acelera, para. Sobra, falta. Concretiza, atropela ou adia sonhos. Muda, cura, transforma, cicatriza. Um dos maiores geógrafos do Brasil, Milton Santos, relacionou bravamente espaço e tempo e desejava oferecer um curso de pós-graduação sobre o tempo.
Gilberto Gil (https://www.youtube.com/watch?v=CTJdrLuNVzQ) canta que o tempo é rei.

Há o tempo de cada coisa. (http://www.nowmaste.com.br/anos-passam-a-vida-sinaliza-tudo- tem-um-tempo-vida-util-comeco-meio-e-fim/) e o tempo de cada um. Tudo acontece em seu (perfeito) tempo. Mas nós, os seres, queremos controlar tempo e acontecimentos. Algo não se realiza (ou dá errado – tudo depende do ponto de vista) e vem a frustração (no lugar da aceitação). Perda de tempo. Como questiona Eckhart Tolle: o que pode ser mais insensato que criar resistência interior a algo que já é?

O tempo não para/congela pra esperar os seres se lamentarem; o tempo passa. E depois de um bom tempo, o ser olha para trás e compreende/assimila: algo não aconteceu naquele passado recente porque não era pra ser – aquele não era o momento/tempo certo -, o ser ainda não estava pronto para receber/viver determinada experiência. Havia uma curva, outro caminho a percorrer, mais alma a amadurecer. E se algo tivesse acontecido diferente, este ser não estaria onde está hoje (e estamos exatamente onde deveríamos estar). Nada acontece sem uma razão maior.

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A vida coloca elementos perfeitos para nos conduzirem pelo melhor caminho (da evolução), que, muitas vezes, não é o caminho mais desejado no momento. E, sábia que é, a vida sinaliza – o tempo todo. O problema é que muitos seres estão correndo demais, ocupados demais, com medo demais, desconfiados demais … e acabam por “passar batido” demais por tantas coisas que poderiam ser lindas e tantas pessoas/ encontros que poderiam ser transformadores.

Tenho pesquisado sobre o movimento SLOW – slow cities (http://www.cittaslow.org/) é super interessante! -, tenho experimentado respirar mais conscientemente, andar com mais calma, sempre atenta ao vento, à natureza, à luz da cidade e, porque não dizer, à solidariedade dos demais seres. Em um encontro inesperado pode existir uma ponte/conexão. Algo que traga à tona um desejo adormecido ou a possibilidade de um novo caminho.

Dois seres + lugar/espaço e tempo certos = encontro mágico. Encontro que se desdobra em troca e cria uma ponte (ponte que liga presente e futuro, externo e interno…ponte que desdobra sonho em realidade).


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O início do novo – Conto-lhes um pedaço recente da minha história para comprovar o quanto a vida é sábia e, a nós, cabe manifestar o desejo, ousar dar o primeiro passo (coragem = agir com o coração) e estar atento a cada sinal/detalhe/acontecimento/encontro do dia a dia. Tudo vem – e nada em vão – na hora em que deve vir.

Queria viver de forma mais simples, do jeito que acredito; transparente, leve, feliz. Queria viver o que mais amo de segunda-feira a segunda-feira (não apenas nos fins de semana e nas férias). O processo de desapego aconteceu aos poucos, naturalmente. Mudei de cidade, vendi o carro, comprei uma bicicleta. Doei objetos e roupas. Hoje, tudo que tenho cabe na mala que me acompanha aonde vou.

Busquei por tudo isso, dei o primeiro passo e as portas foram se abrindo, a vida foi apresentando situações e pessoas que tornaram o caminhar mais bonito – e a transformação segue, faz-se a cada dia.

Elaborei um projeto que engloba um pouco de cada coisa que mais amo fazer e, no ano passado (2014), nasceu o Minideias – https://fernandanicz.wordpress.com/ – e, com ele, uma nova Fernanda e uma nova vida. A partir de então, comecei, de fato, a viver a vida do jeito que acredito, fazendo o que mais amo todos os dias. Viajar, conhecer lugares e pessoas que instigam/encorajam mudanças. Acrescentar meu olhar e emoções provocadas. Compartilhar experiência e beleza. Apresentar diferentes realidades ao mundo. Mostrar que é possível viver – feliz – sem enquadrar-se a padrões impostos pelo sistema e pela sociedade. Afinal, como disse o filósofo e educador indiano Jiddu Krishnamurti, anos atrás, não é sinal de saúde estar bem adaptado a uma sociedade doente.

Os seres nascem puros, desnudos. É durante o crescimento que vão afastando-se da essência, do que, de fato, SÃO, pois são mutilados com comandos sobre o que fazer, o que adquirir o que é certo/normal e o que é errado/surreal. Constroem seu mundo apoiados em definições e crenças alheias. Seguem cegamente /apressadamente o fluxo e nunca se permitem diminuir o ritmo, olhar pra dentro pra lembrar quem SÃO. E é justamente aí, nestas paradas, nestes momentos de silêncio, que é possível descobrir-se e saber-se quase por inteiro.

O silêncio abafa o barulho e cria um espaço para a autenticidade aparecer.

É no silêncio que a singularidade e as paixões se revelam. E conhecendo sua verdade, o ser pode escolher acomodar-se no mundo conhecido/imposto – “normal” ou ousar criar o seu mundo – de acordo com suas crenças. Pois fiz esta última escolha.

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Encontros mágicos – no ano passado, dei início ao Minideias e viajei a Itália (por seis meses) de ponta a ponta : da Ligúria a Sardenha – passando por pequenas vilas e aldeias na Toscana, Umbria, Campania, Calábria, Sicília). Junto com a lista das ecovilas por onde passar tinha uma lista de cidadezinhas que queria muito ver. Consegui ver quase todas. Faltou uma região. Saí da Itália pensando na Puglia…não deu tempo de visitar a ecovila (http://giardinodellagioia.wix.com/eden#!the-garden/cg5c), ver Polignano al Mare, Bari e a bela região de Salento. Batia uma certa tristeza mas, ao mesmo tempo, prometi que voltaria à Itália pra ver tudo que faltou ver e também pra ir até Croácia, Eslovênia (onde uma amiga está iniciando um bonito projeto/ecovila) e Montenegro (é de Bari que sai o barco).

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Certo. O tempo passou. Voltei ao Brasil por uns meses. E em março deste ano, pés na estrada novamente para dar continuidade ao Minideias e à vida que escolhi e amo viver. Foram três meses no Alentejo, na ecovila Tribodar, lugar especial, que inspirou muitos textos e proporcionou um período lindo de puro autoconhecimento. Agora, em junho, vim viver uns meses na cidade da luz encantada; Lisboa.

E, a partir do momento em que decidi viver em Lisboa, o caminho para minha vinda começou a se abrir; fluído, bonito – desde onde morar, onde trabalhar até um inusitado e despretensioso encontro numa ladeira íngreme do bairro da Alfama, no primeiro dia, assim que desci na estação Santa Apolônia. Estava arrastando minha pequena, mas pesada (minha vida está ali) mala numa subida que parecia não ter fim quando um ser (entre tantos que passaram por mim, olharam, tiveram dó – tenho certeza, estava estampado em suas caras) perguntou: “quer ajuda?”. Olhei pra cima, ainda faltava um bom tanto da rua, virei pra ele e disse; “sim, obrigada”. Como ele tinha oferecido ajuda em português perguntei se sabia onde era a rua X, onde devia chegar.

Ele – pode falar mais devagar? Estou aprendendo português…

Eu – where are you from?

Ele – Itália

Eu – davvero? Sono stata ano scorso in Italia.. allora, possiamo parlare italiano (feliz demais com a oportunidade de voltar a praticar – mesmo que com muitos erros – a língua que mais amo). E, curiosa, logo engatei – Di dove sei?

Ele – Puglia. Bari.

Emudeci.

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Como assim, em meio a tanta gente que poderia ter aparecido, de qualquer canto do mundo, de qualquer região da Itália, surge um italiano exatamente da região que faltou ver, da região que tenho pesquisado pra estar em breve?

Quando se quer muito uma coisa, o Universo todo conspira para que dê certo.

Conversamos muito. Tomamos um café juntos e ele me contou que estuda Línguas e Literatura Estrangeira. Que maravilha, amaria fazer este curso! E comecei a prestar atenção em como sou feliz falando italiano. É um dos grandes prazeres da minha vida. Este italiano querido veio me lembrar que faltou ver a Puglia, veio me contar de pequenas cidades perto do mar que nem fazia ideia que existiam, veio me confirmar que vale a pena ir até lá. Veio me mostrar que, quem sabe, o próximo destino seja novamente a Itália, não apenas pra ver o que faltou ver, mas talvez para me aperfeiçoar nesta paixão (falar/estudar italiano). A Puglia nunca foi descartada do meu mapa…apenas, por alguma razão, ficou pra depois.

E como encontros (mágicos) são trocas, o menino italiano disse também o que acrescentei na vida dele. Disse que admira minhas escolhas, que precisava conhecer alguém que vive, de certa forma, com “quase nada material” e é feliz, leve, doce e cheia de histórias lindas pra contar e coisas belas pra mostrar. Em italiano, me disse que o encorajei a fazer e viver o que ama. Lindeza! É isso que dá sentido e faz valer a pena viver; perceber que não apenas meus textos, mas também minha presença, de certa forma, cumpre, faz jus, ao objetivo que escolhi, meu propósito de vida…um ser andarilho, peregrino. Um eremita que caminha por trilhas inexploradas e, aos poucos, vai abrindo o caminho para que outros seres também possam experimentar jornada semelhante.